Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sonhos Urbanos

Powered by Cognitive Science

Rilhafoles

por Jorge, em 07.12.05
A carroça subiu aquela colina deserta numa madrugada húmida, ao longe avistei o edifício cujo nome se tornara sinónimo de um local a evitar.

O colete-de-forças que me envolvia retirava-me a imagem de senhora de boas famílias. Deus sabe o esforço que o meu bom marido fez para me impedir de chegar aqui, bem sei que o meu comportamento incorrecto teria que ser corrigido. Não culpo o bondoso Dr. Cerejeira por ter detectado a causa do meu problema: a semente da loucura está alojada no meu cérebro.

Felizmente a ciência avançou, viver no século XIX tem as suas vantagens, já não somos uns selvagens e as pessoas têm direito a ser tratadas. Mesmo assim temo o edifico e o seu nome; tenho medo de nunca mais sair para o mundo real e deixar a minha vida esfumar-se.

Dei entrada em Rilhafoles, onde um médico me pôde retirar a alma, apenas por assinar um papel, condenando assim, com aquele pérfido acto, os meus filhos a permanecerem sem mãe para toda a eternidade. Quem lhes contará histórias antes de eles se entregarem ao Reino de Morfeus? Quem os embalará quando após um pesadelo, o seu coração estiver inquieto? E as saudades que terei dos seus abraços e da confusão que fazem quando brincam?

Apesar das preocupações com os outros, rapidamente me concentrei na minha dor de estar fechada aqui onde a realidade não mora. Este é o reino da loucura que me afasta das outras pessoas, e as minhas lágrimas tentam ainda ser sinal da minha humanidade recentemente perdida. Queria gritar com toda a força, não consigo porque a tristeza em que existo retirou-me as forças. Vista de fora pareço morta, se me virem por dentro sou uma borboleta no meio do caos.

A minha cabeça não se apresenta mais organizada, aliás os meus pensamentos parecem sufocar entre as paredes, ainda recentemente recitava poemas, hoje luto por me lembrar do nome de quem amo.

O tempo aqui dentro é eterno, ficando assim muito tempo para recordar e alterar o passado. A noite custa mais a ser vivida porque há alturas de gritos ensurdecedores e nem as vozes, dos demónios que ouço, os abafam. As estações do ano confundiram-se umas com as outras, e os sonhos engavetados multiplicaram-se.

Uma nova esperança, o doutor da bata branca disse-me que amanhã serei levada para o tratamento inovador que os outros doutores trouxeram, chama-se electrochoques. Talvez seja a minha última esperança, agarrar-me-ei a ela. Talvez Rilhafoles não seja o inferno que se diz lá fora.

Autor da Ficção: Jorge

Nota do autor: Rilhafoles existiu mesmo, foi no entanto transformado numa conhecida instituição e as suas práticas também evoluíram bastante. E talvez hoje a esperança possa ser maior.

4 comentários

Comentar post