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Sonhos Urbanos

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Um olhar pela vida antes do adeus

por Jorge, em 23.07.05
“Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora
Vou daqui prá minha terra
Que eu desta terra não sou

Tenho minha mãe à espera
Cansada de me esperar
Naquela encosta da serra
Vamos ser dois a chorar

À espera tenho meu pai
Aos anos que o não vejo
O tempo que vai durar
O meu abraço e o meu beijo

Vim solteiro e vou solteiro
Vou livre de coração
Se alguém me quiser prender
Já não vou dizer que não

Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora”

António Variações in "Humanos"

Recentemente fui visitar um amigo meu e ele contou-me algo que me emocionou profundamente, talvez se a contar aqui não tenha o mesmo impacto, mesmo assim quero correr esse risco.

Ele tem 76 anos e em algumas das nossas conversas ele fala que sente a morte próxima, devido à sua fé religiosa não vê a morte como algo mau mas como um início de uma existência diferente. Costuma acrescentar com um sorriso “Quando eu morrer não fiques triste, Jorge! Vais ver que nos voltamos a encontrar noutra altura e noutro sítio”.

Quando alguém me fala da morte, acho sempre que pode ser uma forma de reflexão sobre a vida. E pedi-lhe para ele me falar um pouco das suas vivências, algo que gosto muito de ouvir das pessoas, principalmente quando já viveram mais do triplo da minha idade.

A resposta dele foi “O que me marcou mais na vida foi a morte dos meus pais. Já era adulto, mas senti-me tão sozinho no mundo no dia em que percebi que já não podia estar com eles fisicamente.”, com o sorriso simpático dele ainda me disse “O único consolo é que sei que um dia estarei com eles de novo!”.

Estivemos a falar mais um pouco e depois comentei que tinha que me ir embora pois tinha combinado ir jantar a casa dos meus avós. “Vai lá então. Sabes uma coisa agora que tenho idade para ser avô é que penso muitas vezes que gostava outra vez de ser neto, de estar na quinta dos meus avós e passar férias lá de novo. Ainda que tivesse de ouvir o meu avô a mandar-me estar quieto”. Despedi-me dele com um abraço e fiquei de voltar em breve para continuarmos a conversa.

Fui para casa absorvido nos meus pensamentos e pensei como verei a minha vida se chegar a uma idade avançada. Como será olhar para trás? E já que não partilho a mesma fé religiosa do meu amigo, como vão ser as despedidas daqueles que amo? Já me despedi definitivamente de algumas pessoas e se agora tenho saudades, imagino daqui a algumas décadas. Suponho que faz sentido, mesmo que um pouco doloroso, umas pessoas deixam de fazer parte da nossa existência e passam a estar outras (e que alegria é por aquelas que entram nas nossas vidas).

Um dia despedir-me-ei de todos e apesar de não acreditar que nos vamos voltar a encontrar também não quero que fiquem tristes, pensem que vou estar em paz e que outras novas pessoas virão (relembrem os momentos com mais piada).

Jorge

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