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Sonhos Urbanos

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PECADO?!

por Jorge, em 08.03.05

 


“O que são os demónios?


E em que são, afinal, diferentes dos anjos?”


Alberto Malheiro, Meredith



Franz von Stuck


Pecado, 1893


Permaneço imóvel no canto da sala, a arma a pender-me da mão direita.


Finalmente, aproximo-me de ti e contemplo o teu corpo morto. Os teus olhos vítreos ainda insistem em fitar-me. Sei perfeitamente como me vês: uma mulher demoníaca aparentada com serpentes.


Como eu abomino a tua construção da realidade. Para ti tudo tem que ser bom ou mau, paz ou guerra, anjo ou demónio, preto ou branco, católico ou herege. Tão racionalizado! Tão simplista! Onde deixaste toda uma paleta de cinzentos?


Há tantos Universos que te escapam... Pensando bem, escapa-te o meu Universo inteiro.


Caio na tentação de te defender, mesmo agora a minha tendência é justificar-te... [... E afirmo veementemente que desde pequeno te veicularam estes valores. Como podias ser diferente?] Pois eu recuso essa história de que o pecado entrou no mundo pela mão das mulheres.


Pensas-me sempre amoral só porque vivo sem esse tipo de grades. Não te finjas ingénuo! Sabes perfeitamente que não existem acções 100% boas ou 100% más. Por muito preocupado que estejas com as consequências do que fazes nunca consegues evitar que alguém sofra. Eu faço simplesmente o que tem de ser feito sem recriminações. E considero a minha forma de vida um acto de inteligência.


Por isso, enquanto os teus olhos mortos gritam “pecadora” os meus que clamavam por justiça, gritam “liberdade”.


Tantas perspectivas, tantas verdades...


Texto: Raposa

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